Divirtam-se!
Quando tudo começou
Trabalho com a arte do palhaço desde 2000, quando fiz uma iniciação com Ana Elvira Wuo. Desde esta época desenvolvo trabalhos relacionados com a linguagem clownesca, mas somente em 2005 arrisquei introduzir o jogo do palhaço no espaço escolar com meus alunos.
A ideia não era fazer uma iniciação de clown para crianças e adolescentes, era, simplesmente, possibilitar a experimentação do jogo do palhaço para esses alunos, como forma de experimentarem um pouco as possibilidades deste trabalho para a construção teatral e para o desenvolvimento pessoal de cada um.
Então resolvemos montar O PICADEIRO, um pequeno espetáculo com base em um exercício de clown - a demonstração de habilidades para se conseguir uma vaga no circo.
Segue uma pequena parte do meu projeto de pesquisa O PALHAÇO NO CONTEXTO ESCOLAR
Meu trabalho com clowns no contexto escolar iniciou em 2006 com duas propostas distintas: na oficina “Teatro para gente grande”, para professores, alunos do ensino médio e comunidade em geral e no Projeto Amora, com alunos da 6ª série do ensino fundamental.
Com o grupo de 6ª série, a finalidade maior era montar um espetáculo, o que também culminaria com minha saída da escola pelo término do contrato temporário. Antes de relatar o processo de trabalho cabe uma pequena apresentação do grupo de alunos e suas características.
O grupo era composto por aproximadamente 30 alunos entre 12 e 13 anos, que atualmente estão no ensino médio. Neste grupo era possível observar o exibicionismo e a coação através do deboche e da implicância entre os alunos. Comportamentos esses que se refletiam no jogo de cena, que acabava por não se desenvolver.
Além de professora de teatro eu era articuladora da turma e estava desenvolvendo junto ao serviço de psicologia da escola um intenso trabalho sobre valores, moral e ética. Trabalhos que buscassem promover uma interação mais tranquila e harmoniosa entre a turma. Como fui articuladora desta turma na série anterior, havia estabelecido um vínculo afetivo muito forte com eles. Quando a turma solicitou então que montássemos um espetáculo, sugeri ao grupo o trabalho com os clowns.
O grupo já havia assistido a um trabalho em que apresentei meu clown a eles, assim como já haviam feito alguns exercícios do jogo clownesco. A linguagem, portanto, era familiar a eles e a proposta foi logo aceita pelo grupo. O primeiro passo era construir uma atmosfera de aceitação das diferenças para a observação do outro, revelação e desenvolvimento das características particulares de cada um. A ideia era ter um esboço do que poderia se tornar cada clown e principalmente desenvolver o jogo entre eles. É preciso salientar que meu propósito não era iniciar clowns, mas sim possibilitar aos alunos a experimentação do jogo clownesco.
O trabalho com o clown possibilita o reconhecimento do ridículo de cada um, permite o erro e valoriza o que cada indivíduo tem de único. O clown busca revelar o que cada um esconde ou não reconhece, não de uma forma destrutiva, mas como algo que pode gerar poesia e riso. Neste sentido, os alunos puderam experimentar o ridículo, o erro, o absurdo, pois estavam apoiados e protegidos pelo objetivo do jogo, sem vergonha de se exporem diante do grupo. O objetivo era de que, a partir dessa experiência, os alunos pudessem se reconhecer em suas diferenças, observando que “todo mundo tem pereba”, ao mesmo tempo, que tem coisas muito especiais, e assim buscar minimizar aquelas atitudes desrespeitosas que mantinham em relação uns aos outros.
Até esse momento, o trabalho do clown estava sendo utilizado como forma de alcançar outros objetivos, que não somente a construção teatral dos alunos. O objetivo primeiro era o desenvolvimento das relações interindividuais. Entretanto, a construção da arte teatral e o desenvolvimento das relações interindividuais estão intimamente ligadas, já que o fazer teatral é uma arte essencialmente coletiva.
Atualmente, sou professora novamente no Colégio de Aplicação, com turmas de sétima e oitava série que têm como enfoque a construção de personagens, máscaras e figuras de cena e o desenvolvimento da ação dramática, ou seja, os conflitos de cena. Também sou professora de quinta e sexta série em uma escola particular, em que o trabalho é voltado basicamente para a construção da relação dos alunos com a cena e destes com a plateia.
Encontrei então, nos jogos e exercícios de clown, uma maneira de desenvolver esses conteúdos na medida em que a arte do palhaço trabalha com a relação direta com a platéia (triangulação); com a necessidade de percepção da resposta do público frente às propostas de cena; com a compreensão do jogo do colega; com o desenvolvimento do estado de jogo, que requer estar inteiro, presente para a resolução dos desafios que o jogo cênico propõe; com a descoberta das próprias características e potencialidades corporais e, principalmente, com o rompimento de um comportamento cotidiano. Todas essas características presentes no jogo do clown possibilitam o desenvolvimento de conteúdos que são essenciais na construção teatral.
Todas essas relações entre a aprendizagem dos diversos conteúdos teatrais e a arte clownesca começaram a fazer parte do meu dia-a-dia como professora, e requerem neste momento uma pesquisa mais organizada e aprofundada a respeito desses possíveis elos.
A partir dessas considerações a pergunta norteadora dessa proposta de pesquisa é:
Como o jogo clownesco pode ser um instrumento para a aprendizagem teatral de alunos no contexto escolar?